Há lugares que não são só lugares.
São feridas abertas no mapa da nossa vida.
No dia 14 de fevereiro de 2019 tive um acidente de camião que mudou tudo. Estava grávida da Carolina, com 20 semanas de gestação. Nesse dia, a Carolina morreu dentro de mim.
Eu própria quase morri.
Há datas que não passam. Ficam.
E há dores que não fazem barulho, mas ecoam para sempre.
A partir desse dia, o Dia de São Valentim deixou de ter sentido. O mundo continuou a celebrar o amor a 14 de fevereiro, mas para nós essa data ficou marcada por outra coisa. Não festejamos o Dia dos Namorados nesse dia. Não por falta de amor — mas porque há dias que deixam de permitir celebrações.
Sempre que passo naquele sítio, não é apenas uma estrada. É uma viagem no tempo. O corpo lembra-se antes da cabeça. O coração acelera, a respiração muda, e por breves segundos estou outra vez ali. Não porque queira, mas porque o trauma não pede licença.
Sinto, muitas vezes, que morri ali também.
Ou pelo menos uma parte de mim morreu. A mulher que eu era antes, os sonhos que carregava, a inocência de acreditar que a vida segue sempre um rumo lógico e justo.
A Carolina não teve tempo de respirar o mundo, mas teve um lugar em mim. E terá sempre. Não se “ultrapassa” a perda de um filho. Aprende-se, com muito custo, a viver com a ausência. Aprende-se a caminhar com um vazio que ninguém vê.
Escrevo isto não para causar pena, mas para dizer uma verdade que raramente é dita em voz alta: sobreviver não é o mesmo que viver sem marcas. E está tudo bem em admitir isso.
Hoje sigo em frente — não porque seja fácil, mas porque é possível. Com cicatrizes. Com memórias. Com dias melhores e outros em que tudo pesa mais.
E naquele lugar… ficou uma parte de mim.
Mas outra parte escolheu ficar viva.
À minha filha, Ana Carolina.
Foste amor desde o primeiro instante.
Vives em mim, em nós, hoje e sempre.