terça-feira, 22 de setembro de 2026

O barquinho que queria ser navio




Na Gafanha da Nazaré, onde a terra parece ter aprendido a conversar com a água, havia um pequeno barquinho de vela.

Era mesmo pequenino.

Tinha uma vela branca, um casco já com algumas marcas do tempo e um pequeno leme que rangia sempre que alguém o fazia virar.

Vivia amarrado junto à ria, entre barcos muito maiores.

Havia barcos de pesca, traineiras, pequenas embarcações de trabalho e, mais ao longe, os grandes navios que entravam e saíam da barra.

E era precisamente esses que o pequeno barquinho admirava.

Todas as manhãs, quando o sol começava a aparecer por detrás das casas da Gafanha, ele ficava a olhar para o horizonte.

— Um dia ainda vou ser um navio pesqueiro — dizia.

Os outros barcos riam-se.

— Com esse tamanho?

— Tens uma vela, não tens motor!

— Nem sequer tens espaço para levar uma caixa de peixe!

O pequeno barquinho ficava triste.

Mas não desistia.

Quando o vento soprava, esticava a sua vela e imaginava que estava no meio do oceano.

Quando via uma traineira regressar carregada de peixe, imaginava-se no lugar dela.

E quando os grandes navios passavam ao largo, fazia força para não parecer demasiado pequeno.

Havia, porém, uma coisa que ninguém conseguia tirar-lhe:

O sonho.

Todas as noites, antes de adormecer, olhava para o céu e perguntava:

— Será que um barco pode ser aquilo que ainda não é?

Certa noite, o mar estava particularmente calmo.

A lua espalhava um caminho prateado sobre a água e, ao longe, o Farol da Barra iluminava a escuridão.

Uma luz.

Depois outra.

E outra.

Sempre firme.

Sempre no mesmo lugar.

O pequeno barquinho ficou a observá-lo.

— Farol... tu achas que eu consigo?

O farol continuou a rodar a sua luz sobre o mar.

E, por um instante, pareceu-lhe que a luz tinha parado precisamente sobre ele.

— Talvez não precises de ser maior — pareceu-lhe ouvir.

O barquinho franziu a madeira.

— Como assim?

— Talvez precises apenas de descobrir até onde consegues chegar.

Na manhã seguinte, o vento levantou-se.

Era um vento forte, daqueles que fazem a ria ganhar pequenas ondas e obrigam os barcos a prender melhor as amarras.

O pequeno barquinho sentiu a vela encher-se.

Pela primeira vez, soltaram-no.

Ele afastou-se devagar.

Passou pelas margens da Gafanha.

Deixou para trás os barcos que sempre tinham gozado com ele.

E continuou.

Quanto mais avançava, mais o coração parecia bater.

Chegou perto da Barra.

E ali estava ele.

O farol.

Alto, branco e imponente.

O pequeno barquinho olhou para cima.

— Cheguei até aqui.

O farol iluminou-o.

E, naquele momento, percebeu uma coisa.

Talvez nunca viesse a ter o tamanho de uma grande traineira.

Talvez nunca tivesse um motor potente.

Talvez nunca carregasse toneladas de peixe.

Mas tinha atravessado águas que muitos barcos maiores nunca tinham tido coragem de enfrentar.

Tinha aprendido a conhecer o vento.

Tinha aprendido a respeitar o mar.

E, sobretudo, tinha aprendido a não deixar que os outros decidissem o tamanho dos seus sonhos.

Nesse dia, quando regressou à Gafanha da Nazaré, os outros barcos estavam à sua espera.

Ninguém riu.

Ninguém disse que ele era pequeno demais.

Porque agora todos sabiam uma coisa:

O tamanho de um barco não se mede pelo comprimento do casco.

Mede-se pelo tamanho do mar que ele tem coragem de enfrentar.

E o pequeno barquinho continuou a navegar.

Ainda sonhava com o dia em que seria um navio pesqueiro.

Mas já não sonhava porque queria deixar de ser quem era.

Sonhava porque descobrira que ser pequeno nunca foi o mesmo que ter sonhos pequenos.

E, todas as noites, quando o Farol da Barra acendia a sua luz sobre a ria e sobre o mar, o pequeno barquinho sorria.

Porque sabia que, algures entre a Gafanha e o horizonte, ainda havia muito mar para descobrir.

E muitos sonhos para navegar.

 

Autoria: Ana Cristina Marques, 0 22/09/2026 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Como me sinto!!

  


Às vezes perguntam-me como me sinto, e eu não sei responder.

Não porque não queira. Não porque não saiba o que se passa dentro de mim, mas porque é difícil pôr em palavras algo que foi crescendo devagar e de forma silenciosa.

Eu amo a minha profissão. Sempre amei conduzir. Sempre tive orgulho no que faço e na responsabilidade que isso implica. E, por isso mesmo, é muito difícil para mim admitir isto: neste momento não me sinto psicologicamente capaz de voltar à estrada.

Não foi uma decisão leve. Vim para casa de baixa precisamente para evitar o pior — para me proteger e para proteger os outros. Porque percebi que já não estava segura como deveria estar.

Durante muito tempo vivi num estado de cansaço profundo. O meu cérebro nunca desligava. Mesmo quando tentava descansar, continuava em alerta, a pensar, a planear, a preocupar-se. O sono deixou de ser verdadeiro descanso. Não era reparador.

Fui acumulando exaustão sem me dar conta. E o corpo começou a dar sinais muito claros de que já não estava a aguentar.

Cheguei a sentir um sono tão intenso enquanto conduzia que isso me assustou. Houve momentos em que senti que estava a lutar contra o próprio corpo para me manter desperta. E houve um episódio que nunca esqueço: enquanto aguardava pelos documentos de uma descarga, entre o reboque e o cais, adormeci em pé.

Não foi distração. Não foi falta de responsabilidade. Foi exaustão.

Hoje consigo dormir melhor. O tratamento ajudou nesse aspeto. Mas isso não significa que esteja recuperada.

Continuo a sentir-me desligada, como se não estivesse totalmente presente. Como se uma parte de mim estivesse distante. Tenho dias em que me sinto sem energia, sem motivação e com uma espécie de nevoeiro constante na cabeça. Pensar e concentrar-me continuam a exigir esforço.

As sensações de instabilidade e desequilíbrio também me deixam insegura. E isso, para alguém que conduz veículos pesados, pesa muito mais do que consigo explicar.

O mais difícil é que por fora posso parecer melhor. Cumpro tarefas, levanto-me, faço o que é preciso. Mas por dentro ainda estou num processo de recuperação que não acompanha o que se vê de fora.

Eu não quero deixar de conduzir. Não quero afastar-me da minha profissão. Quero voltar a sentir-me eu — segura, presente e capaz.

E neste momento, honestamente, ainda não estou lá.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Sonhos estranhos



Há sonhos que desaparecem minutos depois de acordarmos. Outros ficam connosco o dia inteiro, como se tivessem deixado uma marca invisível na alma. Esta noite tive um desses sonhos.

Sonhei que estava em casa dos meus avós maternos. No sonho, ambos estavam vivos. Estávamos lá eu, o meu marido e os nossos quatro gatos. O ambiente era estranho, mas ao mesmo tempo tranquilo. Havia uma certeza silenciosa no ar: eu sabia que ia morrer naquele dia.

Disseram-me que precisava de comer ovos cozidos para poder partir sem agonia. Não senti medo. Apenas uma espécie de aceitação calma. Entretanto fui ajudar a minha avó a fazer qualquer coisa em casa e distraí-me completamente da hora em que supostamente deveria morrer.

Foi então que apareceu uma mulher-anjo à janela. Chamava por mim com serenidade, dizendo que eu tinha ultrapassado a minha hora e que estavam à minha espera.

Pediu-me as mãos.

Eu dei-lhas.

E morri.

Acordei profundamente impressionada com a intensidade e a paz daquele sonho. Não houve terror, perseguição ou sofrimento. Apenas uma sensação de passagem, como se estivesse a atravessar uma porta invisível entre duas fases.

Muitas pessoas associam sonhos com a própria morte a maus presságios, mas a verdade é que, simbolicamente, estes sonhos costumam representar transformação, desgaste emocional ou o fim de um ciclo interior. A morte nos sonhos raramente fala da morte física; fala mais de mudanças profundas dentro de nós.

Talvez o meu subconsciente esteja apenas cansado. Talvez esteja a processar emoções, ansiedade, noites mal dormidas e o peso psicológico acumulado dos últimos tempos. Ou talvez o sonho tenha sido apenas um lembrete estranho de que, por vezes, precisamos deixar morrer partes de nós para conseguirmos continuar.

Seja qual for o significado, foi um daqueles sonhos impossíveis de esquecer.



I




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Há lugares que nos atravessam

Hoje vim descarregar à base do Intermarché de Paços de Ferreira.

Um dia de trabalho normal. Mais um destino, mais uma entrega.

Mas ao passar pelo estabelecimento prisional, o tempo parou por segundos.

Há lugares que nos atravessam. Que não são apenas edifícios. São memórias vivas. São capítulos inteiros da nossa história.

Ali corri durante anos com a minha avó e com os meus sobrinhos para visitar o meu irmão mais velho. Ali esperei dias de precária, horas que pareciam eternas, para o trazer e depois para o levar de volta. Ali vivi silêncios pesados no carro, conversas difíceis, perguntas inocentes que não sabíamos bem como responder.

Foram anos muito difíceis.

Não vou romantizar. Ele errou. E mereceu enfrentar as consequências dos seus atos. A justiça faz o seu caminho.

Mas há uma parte desta história que quase nunca se fala: a da família.

Nós não merecíamos os julgamentos.

Não merecíamos os olhares atravessados.

Não merecíamos os comentários sussurrados nem as certezas de quem nunca viveu na nossa pele.

Há uma dor silenciosa em ser “família de”.

Carregamos o peso da culpa que não é nossa.

Carregamos a vergonha que a sociedade decide distribuir por apelido.

Carregamos a lealdade, mesmo quando ela dói.

Hoje, ao passar ali, senti um misto de emoções difícil de explicar. Não foi só tristeza. Não foi só revolta. Foi também consciência do caminho que percorremos. Do que resistimos. Do que aguentámos.

Foram anos que nos marcaram, mas não nos definem.

Sobrevivemos aos julgamentos alheios. Sobrevivemos às incertezas. Sobrevivemos ao peso do que não escolhemos viver.

E hoje, ao passar naquele mesmo lugar, já não sou a mesma mulher que ali deixava o irmão depois de uma visita.

Sou alguém que sabe que a dor transforma. Que as cicatrizes ensinam. E que nem todos os fardos que carregamos são nossos — mas mesmo assim aprendemos a suportá-los.

Há lugares que nos atravessam.

Mas também há força em conseguir atravessá-los de volta.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O lugar onde ficou uma parte de mim

Há lugares que não são só lugares.

São feridas abertas no mapa da nossa vida.

No dia 14 de fevereiro de 2019 tive um acidente de camião que mudou tudo. Estava grávida da Carolina, com 20 semanas de gestação. Nesse dia, a Carolina morreu dentro de mim.

Eu própria quase morri.

Há datas que não passam. Ficam.

E há dores que não fazem barulho, mas ecoam para sempre.

A partir desse dia, o Dia de São Valentim deixou de ter sentido. O mundo continuou a celebrar o amor a 14 de fevereiro, mas para nós essa data ficou marcada por outra coisa. Não festejamos o Dia dos Namorados nesse dia. Não por falta de amor — mas porque há dias que deixam de permitir celebrações.

Sempre que passo naquele sítio, não é apenas uma estrada. É uma viagem no tempo. O corpo lembra-se antes da cabeça. O coração acelera, a respiração muda, e por breves segundos estou outra vez ali. Não porque queira, mas porque o trauma não pede licença.

Sinto, muitas vezes, que morri ali também.

Ou pelo menos uma parte de mim morreu. A mulher que eu era antes, os sonhos que carregava, a inocência de acreditar que a vida segue sempre um rumo lógico e justo.

A Carolina não teve tempo de respirar o mundo, mas teve um lugar em mim. E terá sempre. Não se “ultrapassa” a perda de um filho. Aprende-se, com muito custo, a viver com a ausência. Aprende-se a caminhar com um vazio que ninguém vê.

Escrevo isto não para causar pena, mas para dizer uma verdade que raramente é dita em voz alta: sobreviver não é o mesmo que viver sem marcas. E está tudo bem em admitir isso.

Hoje sigo em frente — não porque seja fácil, mas porque é possível. Com cicatrizes. Com memórias. Com dias melhores e outros em que tudo pesa mais.

E naquele lugar… ficou uma parte de mim.

Mas outra parte escolheu ficar viva.


À minha filha, Ana Carolina.

Foste amor desde o primeiro instante.

Vives em mim, em nós, hoje e sempre.


sábado, 29 de novembro de 2025

Um Desabafo do Coração

Há palavras que ferem mais do que qualquer dor física.

Nos últimos dias chegaram-me comentários  que sou “malandra”, que “vivo às custas dos outros”.

Quem diz isto não imagina nem um décimo do que é a minha vida.


Trabalho como motorista de pesados de mercadorias — um dos trabalhos mais duros que existem.

Esta semana foi mais uma daquelas:


Saí de casa no domingo depois do almoço,


Só voltei hoje, novamente depois do almoço,


A maioria dos dias acordei às 4h para começar às 5h,


Passei horas e horas a correr contra o relógio, contra o trânsito com entregas marcadas ao minuto.


Enquanto alguns ainda dormiam, eu já estava a enfrentar chuva, frio, trânsito, estradas estreitas, clientes exigentes… e o cansaço acumulado de quem raramente pára.


E além de tudo isto, carrego ainda um corpo que não me facilita a vida.

Para além da obesidade, tenho artrose nível 4 no joelho direito — o grau mais avançado.

Tenho um problema lombar inoperável que, quando as dores apertam, me deixa bloqueada da cintura para baixo, fico a rastejar.

Quem trabalha comigo e já viu, sabe que é verdade. 


Mas mesmo assim eu levanto-me.

Mesmo assim eu conduzo.

Mesmo assim eu trabalho.

Mesmo assim eu não desisto.


Porque vivo do meu esforço.

Porque nada me foi dado.

Porque aprendi a lutar — mesmo quando o meu próprio corpo luta contra mim.


Por isso dói — dói mesmo — ouvir que sou “malandra”.

Não pelo insulto em si, mas pela injustiça.

Pela falta de empatia.

Por virem de onde menos esperava.


Este texto não é para atacar ninguém.

É apenas para deixar a minha verdade clara:

Eu trabalho. Eu esforço-me. Eu sacrifico-me. Eu aguento dores que muitos não aguentariam um minuto.


E faço tudo isto de cabeça erguida.

Com orgulho no que sou e no que conquisto.


Que este desabafo sirva apenas para lembrar que, antes de falar, é bom saber.

E antes de julgar, é bom sentir.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

🌿 Descobrir-me no espetro: quando finalmente percebi que podia ser autista

 

Durante anos senti-me “diferente”, até perceber que talvez não fosse o mundo que eu não entendia — mas o mundo que nem sempre me entendia a mim. Esta é a história da minha descoberta interior e do abraço que encontrei em mim mesma.

Durante muito tempo senti que havia algo em mim que não se encaixava completamente no mundo à minha volta.
As pessoas pareciam entender-se com facilidade, enquanto eu, muitas vezes, sentia que falava uma língua diferente — invisível, mas real.
Cresci a tentar adaptar-me, a observar, a copiar gestos e expressões, a disfarçar desconfortos e a controlar emoções que pareciam sempre “demais”. E durante anos, pensei que o problema era meu.

Foi apenas quando comecei a cruzar-me com testemunhos de outras pessoas autistas que algo dentro de mim despertou.
As histórias que lia soavam assustadoramente familiares. Pequenos detalhes, sensações, formas de pensar e reagir — tudo começava a fazer sentido.
E, pela primeira vez, senti que havia uma explicação para aquilo que sempre me fez sentir diferente: a possibilidade de estar no espetro do autismo.

Ao mergulhar nesse auto conhecimento, percebi muitas coisas sobre mim.
Percebi que não é “mania” querer previsibilidade, é necessidade de segurança.
Que não é falta de empatia precisar de tempo sozinha depois de estar com pessoas — é sobrecarga emocional e sensorial.
Que não é “falta de flexibilidade” sentir desconforto com mudanças repentinas — é forma de me proteger de um mundo que, por vezes, é demasiado intenso.
E que o meu hiperfoco — essa paixão quase incontrolável por certos temas — não é obsessão, é uma das minhas formas mais puras de expressão e aprendizagem.

Olhar para trás com esta nova lente trouxe-me paz.
De repente, momentos do passado ganharam outro significado.
Deixei de me ver como alguém “fora do normal” e comecei a ver-me como alguém que apenas percebe, sente e reage ao mundo de forma diferente.
E isso… é bonito.

Muitas vezes, quando falo sobre esta possibilidade, algumas pessoas questionam:
“Mas tu não pareces autista. És tão bem falante, sociável, despachada, inteligente…”
Ouço essas palavras com carinho, mas também com um certo peso — porque mostram o quanto ainda existe desconhecimento sobre o autismo, sobretudo nas mulheres.

Na verdade, tenho dislexia e misofonia, ambas diagnosticadas em 2016 pela psicóloga que me acompanhava na altura.
A misofonia faz com que sons específicos — como mastigar, clicar de canetas ou certos ruídos repetitivos — me causem um desconforto quase físico, uma reação difícil de explicar, mas muito real.
E sim, sou comunicativa e consigo adaptar-me socialmente, mas o esforço que isso exige é enorme.
Tento ser sociável, mas, depois, fico emocionalmente e fisicamente esgotada.
Sou despachada porque assim fui educada — aprendi a reagir com rapidez e a resolver o que é preciso — mas isso não apaga a confusão ou o cansaço que por vezes sinto por dentro.
E quanto à inteligência… ser inteligente nunca foi o oposto de estar no espetro autista.
Significa apenas que o meu cérebro funciona de forma intensa, seletiva e curiosa — com áreas em que mergulho profundamente e outras que me desafiam mais.

Também recordo agora um episódio importante da minha vida que, na altura, ninguém associou a nada disto.
Em abril de 2002, fui diagnosticada com epilepsia generalizada idiopática.
Hoje, olhando para trás, percebo que esse diagnóstico poderia ter sido um sinal de algo mais — talvez já uma manifestação de autismo que não foi valorizada na altura.
Durante dois ou três anos tive crises convulsivas e, depois, desapareceram tão repentinamente como tinham aparecido.
Mais tarde, descobri que o cérebro de uma pessoa autista pode ter maior atividade elétrica do que o de uma pessoa não autista, o que me fez acreditar que, afinal, em 2002 tive um mau diagnóstico.
Não por culpa de ninguém, mas porque, simplesmente, o conhecimento sobre o autismo — especialmente em mulheres — era muito mais limitado.

Ainda hoje tenho reações típicas de uma pessoa autista.
Há dias, num momento de grande entusiasmo, dei por mim a saltitar de alegria, de forma espontânea, como uma criança autista faz.
O meu marido olhou para mim e sorriu, dizendo: “Estás a ver? Ainda hoje fazes isso. Provavelmente já o fazias em criança e ninguém valorizou.”
E é verdade.
Recordo que, em pequena, tinha o hábito constante de andar nas pontas dos pés — algo que, na altura, ninguém achou relevante, mas que hoje percebo ser mais uma peça do puzzle que me ajuda a compreender-me melhor.

Juntando também o facto de ter hipersensibilidade à luz, durante anos, foi muito difícil tirar fotografias, porque sempre que o flash disparava eu fechava os olhos, tenho imensas fotografias com os olhos fechados.  O facto de não suportar certos ruídos, ou quando os mesmos ficam em loop na minha cabeça, torna-se esgotante. O facto de não suportar certos tecidos,  etiquetas, toques, ou mesmo bichos a tocar na minha pele. 

Esta descoberta não me prendeu a um rótulo.
Pelo contrário — libertou-me.
Ajudou-me a aceitar as minhas diferenças, a cuidar melhor de mim e, acima de tudo, a deixar de tentar ser quem não sou.

Hoje, continuo a aprender — sobre o autismo, sobre mim e sobre a forma como o mundo nos ensina a esconder aquilo que nos torna únicos.
Mas, pela primeira vez, sinto-me em paz com a pessoa que sou.
E talvez seja isso o mais importante: deixar de tentar encaixar e começar, simplesmente, a existir.

Com carinho,
Ana 🌸