sábado, 26 de setembro de 2026

O Farol que Tinha Medo do Escuro

 



Diz quem conhece bem a costa da Gafanha que, quando a noite cai e o mar começa a ficar negro, há uma luz que nunca se esquece de ninguém.

É a luz do Farol da Barra.

Todas as noites, quando o sol desaparecia atrás do horizonte, o Farol acendia a sua grande luz e começava a varrer o mar.

Uma volta.

Outra volta.

E mais outra.

Iluminava os barcos que regressavam a casa, os pescadores que ainda andavam lá fora e até aqueles que, perdidos no meio da escuridão, já começavam a pensar que talvez nunca encontrassem o caminho de volta.

— Estou aqui — dizia o Farol.

E o mar parecia responder:

— Nós sabemos.

O Farol gostava daquilo.

Gostava de ser útil.

Gostava de saber que, algures no meio da noite, havia alguém que via a sua luz e respirava de alívio.

Mas havia uma coisa que ninguém sabia.

O Farol tinha medo do escuro.

Sim.

Um farol.

Com medo do escuro.

Pode parecer uma coisa estranha, mas era verdade.

Quando chegava a hora de apagar a luz, o Farol ficava inquieto.

O mar desaparecia na escuridão.

A praia ficava silenciosa.

As gaivotas procuravam abrigo.

E ele ficava ali, sozinho, sem saber muito bem o que fazer consigo próprio.

— E se o escuro for maior do que eu? — perguntava baixinho.

Numa dessas noites, a pequena Matilde, a gaivota mais curiosa da costa, pousou numa das pedras junto ao Farol.

— Estás com medo?

O Farol ficou em silêncio.

— Eu? Medo? — respondeu finalmente. — Sou um farol. Eu é que ilumino os outros.

Matilde inclinou a cabeça.

— Isso não responde à minha pergunta.

O Farol suspirou.

— Tenho medo do escuro.

Matilde não se riu.

Não fez piadas.

Nem sequer lhe disse que aquilo era absurdo.

Limitou-se a olhar para o mar.

— Sabes uma coisa? — disse ela. — Eu também tenho medo de algumas coisas.

— Tu?

— Claro.

— De quê?

Matilde pensou durante uns segundos.

— De tempestades.

O Farol ficou surpreendido.

— Mas tu voas!

— E tu iluminas.

Ficaram os dois em silêncio.

Porque, naquele momento, perceberam uma coisa.

Talvez ser aquilo que somos não nos torne imunes ao medo.

Talvez coragem não seja nunca ter medo.

Talvez coragem seja continuar a fazer aquilo que sabemos fazer, mesmo quando o medo aparece.

Nessa noite, Matilde ficou ali.

O Farol apagou a luz.

E, pela primeira vez, não ficou sozinho com o escuro.

Ficaram os dois a olhar para o mar.

A lua apareceu entre as nuvens e desenhou um caminho prateado sobre a água.

— Afinal — disse Matilde — o escuro também tem luzes.

O Farol sorriu.

Desde essa noite, continuou a acender a sua luz todas as noites.

Continuou a guiar barcos.

Continuou a iluminar quem precisava de encontrar o caminho de casa.

Mas nunca mais teve vergonha de dizer que tinha medo.

Porque percebeu que não precisava de deixar de ter medo para continuar a ser farol.

E talvez seja essa a coisa mais bonita que o mar alguma vez lhe ensinou:

Há quem passe a vida a iluminar o caminho dos outros e se esqueça de que também merece uma luz quando chega a sua vez de ter medo.

 

 

Autoria: Ana Cristina Marques, 26-09-2026 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A Mulher que Tinha Mil Vidas

 

 


 

Havia mulheres que desde cedo sabiam o o que queriam ser.

Ela não.

Ou melhor… queria ser tudo.

Quando era miúda, queria conhecer o mundo. Depois quis ensinar. Mais tarde quis conduzir. Houve uma altura em que quis trabalhar com números, outra em que descobriu que também sabia escrever.

E pelo meio ainda quis pintar, fazer artesanato, aprender línguas, viajar, cantar, inventar histórias e, se tivesse tempo, provavelmente aprender mais umas três profissões só porque sim.

As pessoas chamavam-lhe indecisa.

Ela chegou a acreditar.

— Tu tens de te focar numa coisa — diziam-lhe.

E ela tentava.

Tentava caber numa profissão.

Numa casa.

Numa rotina.

Num plano.

Num futuro cuidadosamente desenhado.

Mas havia sempre qualquer coisa dentro dela a bater à porta.

Uma ideia.

Uma vontade.

Uma estrada.

Uma palavra.

Um livro.

Um camião a passar.

Uma tela em branco.

Uma música que começava e que, dois segundos depois, já lhe estava inteira dentro da cabeça.

Era como se tivesse várias mulheres a viver dentro dela e todas quisessem sair ao mesmo tempo.

Uma queria pegar na estrada.

Outra queria ficar em casa a escrever.

Outra queria ensinar.

Outra queria criar coisas com as mãos.

Outra queria viajar até ao outro lado do mundo.

Outra queria simplesmente sentar-se junto ao mar e não fazer absolutamente nada.

Durante muito tempo achou que aquilo era um defeito.

Porque as pessoas gostam de coisas simples.

"Então, afinal, o que queres ser?"

Ela nunca soube responder.

Ou talvez soubesse demasiado bem.

Queria ser livre.

Mas liberdade não cabia numa profissão.

Nem num currículo.

Nem numa caixa para assinalar com uma cruz.

O tempo passou.

E ela foi vivendo.

Alguns sonhos chegaram.

Outros ficaram pelo caminho.

Alguns morreram.

Outros ficaram apenas adormecidos, à espera de que alguém os acordasse.

E houve dias em que olhou para trás e pensou:

"Se calhar perdi tempo."

Até que, certa noite, abriu uma gaveta antiga.

Lá dentro estavam pedaços das suas vidas.

Uma fotografia.

Um bilhete.

Um desenho.

Uma receita.

Uma caneta.

Uma folha cheia de contas.

Uma frase escrita à pressa.

Uma fotografia de uma estrada.

Um pequeno pedaço de tecido.

E um papel onde, anos antes, tinha escrito uma coisa aparentemente absurda:

"Um dia ainda vou escrever um livro."

Ela sorriu.

Não porque tivesse cumprido tudo.

Mas porque percebeu uma coisa.

A mulher que queria ensinar não tinha desaparecido quando começou a conduzir.

A mulher que queria conduzir não morreu quando começou a escrever.

A mulher dos números não deixou de existir quando pegou num pincel.

A mulher que fazia artesanato continuava ali quando começou a sonhar com outras coisas.

Nenhuma tinha sido substituída.

Tinham-se acumulado.

Como páginas de um livro.

Foi então que percebeu o erro.

Passara anos a tentar descobrir qual delas era a verdadeira.

A mulher que queria ensinar.

A que queria conduzir.

A que fazia contas.

A que escrevia.

A que pintava.

A que criava coisas com as mãos.

A que queria aprender mais uma língua só porque sim.

A que precisava de estrada.

A que precisava de mar.

A que, de vez em quando, só precisava de desaparecer do mundo durante umas horas e ficar sozinha com os próprios pensamentos.

Durante anos achara que tinha de escolher.

Uma profissão.

Um caminho.

Uma versão de si própria.

Como se a vida fosse uma sala com uma única porta e, depois de escolher uma, todas as outras se fechassem para sempre.

Mas não.

Nenhuma tinha desaparecido.

Tinham ficado todas lá.

Aguardando.

Às vezes caladas.

Às vezes aos gritos.

Mas sempre dela.

E foi aí que finalmente percebeu:

Não tinha mil vidas porque não soubesse quem era.

Tinha mil vidas porque nunca coubera numa só.

Talvez nunca tivesse sido indecisa.

Talvez tivesse sido apenas demasiado grande para os lugares onde tentou caber.

Demasiado curiosa para uma única profissão.

Demasiado inquieta para uma vida previsível.

Demasiado viva para aceitar que nascer, estudar, trabalhar, pagar contas e envelhecer fosse tudo o que havia para fazer.

Olhou novamente para o espelho.

Desta vez não procurou uma resposta.

Procurou-se.

E encontrou-a.

Estava ali.

Com todas as cicatrizes.

Todos os sonhos.

Todas as versões.

Todos os erros.

Todas as estradas que percorreu e todas aquelas que ainda queria percorrer.

Sorriu.

— Afinal, eu não andei perdida.

Fez uma pausa.

— Andei ocupada a ser eu.

E talvez fosse essa a maior diferença.

Há pessoas que passam a vida inteira à procura do seu lugar no mundo.

Ela percebeu que não precisava de encontrar lugar nenhum.

Precisava era de deixar de pedir licença para ocupar espaço.

Fechou a gaveta.

Apagou a luz.

E saiu.

Não sabia exatamente para onde ia.

Mas, pela primeira vez, isso não a assustava.

Porque já tinha finalmente percebido uma coisa:

Não nasceu para escolher uma vida.

Nasceu para viver todas as que conseguisse.

E se a vida insistisse em pôr-lhe limites, ela faria o que sempre soube fazer melhor.

Abriria outra estrada.

E seguiria. 

 

 Autoria: Ana Cristina Marques, 25/09/2026 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A Gaivota que Queria Ser Pescadora

 


 


 Na Gafanha da Nazaré havia uma gaivota que não era como as outras.

Chamava-se Matilde.

Enquanto as outras gaivotas passavam o dia a voar por cima da ria, a pousar nos barcos e a discutir umas com as outras por causa de um pedaço de pão, Matilde tinha um sonho.

Queria ser pescadora.

— Pescadora? — perguntou a gaivota mais velha, arregalando os olhos. — Tu és uma gaivota!

— Eu sei.

— E as gaivotas não são pescadoras.

Matilde olhou para ela com ar desconfiado.

— Então explica-me porque é que passamos a vida a roubar peixe aos pescadores.

A gaivota mais velha ficou calada.

Não tinha pensado nisso.

E Matilde tinha razão.

Todas as manhãs, lá ia ela até aos barcos, tentando perceber como funcionava aquela coisa de pescar.

Observava os pescadores a preparar as redes.

Observava os barcos a sair.

Observava os homens a olhar para o céu, para o mar e para o vento, como se conseguissem conversar com eles.

E Matilde queria aprender.

Um dia, decidiu que já estava preparada.

Voou até um pequeno barco que estava atracado na ria e pousou orgulhosamente na proa.

— Bom dia! — disse.

O pescador levantou a cabeça.

— Bom dia...?

— Vim aprender a pescar.

O homem ficou a olhar para ela.

Depois começou a rir.

— E sabes pescar?

— Ainda não.

— Sabes lançar redes?

— Ainda não.

— Sabes conduzir um barco?

Matilde endireitou as penas.

— Isso também ainda não.

— Então sabes fazer o quê?

Matilde pensou.

— Sei encontrar peixe.

O pescador deixou de rir.

— Isso sabes?

— Claro. Tenho asas.

O homem coçou a cabeça.

Aquilo, admitia, fazia algum sentido.

Nesse dia, Matilde acompanhou o barco.

Não conseguiu lançar redes.

Não conseguiu conduzir.

E quase caiu dentro de água três vezes.

Mas encontrou um cardume.

— Ali! — gritou ela, voando em círculos. — Ali!

O pescador aproximou o barco.

E tinha razão.

Havia peixe.

A partir desse dia, Matilde passou a acompanhar os pescadores.

Nunca chegou a ser uma pescadora como imaginava.

Não aprendeu a lançar redes.

Não conduziu nenhum barco.

E continuou a roubar um ou outro peixe quando ninguém estava a olhar.

Mas tornou-se uma excelente companheira de bordo.

E descobriu uma coisa importante.

Às vezes, não precisamos de ser exatamente aquilo que sonhámos ser.

Podemos descobrir que temos um lugar diferente.

Um lugar onde aquilo que sabemos fazer é precisamente aquilo de que alguém precisava.

Ao fim da tarde, Matilde costumava pousar no topo do barco e olhar para o Farol da Barra.

E dizia:

— Um dia ainda vou ter o meu próprio barco.

O farol ficava calado.

Mas parecia piscar um bocadinho mais depressa.

Talvez estivesse a rir.

Ou talvez soubesse que, conhecendo Matilde, aquele dia ainda havia de chegar.

Porque naquela terra de barcos, marés e sonhos, havia uma coisa que toda a gente aprendia cedo:

Nunca se deve dizer a uma gaivota que ela não consegue fazer alguma coisa.

Principalmente à Matilde.

Porque ela podia muito bem tentar.

E, provavelmente, ainda conseguia.

 

Autoria: Ana Cristina Marques, 23-09-2026 

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O barquinho que queria ser navio




Na Gafanha da Nazaré, onde a terra parece ter aprendido a conversar com a água, havia um pequeno barquinho de vela.

Era mesmo pequenino.

Tinha uma vela branca, um casco já com algumas marcas do tempo e um pequeno leme que rangia sempre que alguém o fazia virar.

Vivia amarrado junto à ria, entre barcos muito maiores.

Havia barcos de pesca, traineiras, pequenas embarcações de trabalho e, mais ao longe, os grandes navios que entravam e saíam da barra.

E era precisamente esses que o pequeno barquinho admirava.

Todas as manhãs, quando o sol começava a aparecer por detrás das casas da Gafanha, ele ficava a olhar para o horizonte.

— Um dia ainda vou ser um navio pesqueiro — dizia.

Os outros barcos riam-se.

— Com esse tamanho?

— Tens uma vela, não tens motor!

— Nem sequer tens espaço para levar uma caixa de peixe!

O pequeno barquinho ficava triste.

Mas não desistia.

Quando o vento soprava, esticava a sua vela e imaginava que estava no meio do oceano.

Quando via uma traineira regressar carregada de peixe, imaginava-se no lugar dela.

E quando os grandes navios passavam ao largo, fazia força para não parecer demasiado pequeno.

Havia, porém, uma coisa que ninguém conseguia tirar-lhe:

O sonho.

Todas as noites, antes de adormecer, olhava para o céu e perguntava:

— Será que um barco pode ser aquilo que ainda não é?

Certa noite, o mar estava particularmente calmo.

A lua espalhava um caminho prateado sobre a água e, ao longe, o Farol da Barra iluminava a escuridão.

Uma luz.

Depois outra.

E outra.

Sempre firme.

Sempre no mesmo lugar.

O pequeno barquinho ficou a observá-lo.

— Farol... tu achas que eu consigo?

O farol continuou a rodar a sua luz sobre o mar.

E, por um instante, pareceu-lhe que a luz tinha parado precisamente sobre ele.

— Talvez não precises de ser maior — pareceu-lhe ouvir.

O barquinho franziu a madeira.

— Como assim?

— Talvez precises apenas de descobrir até onde consegues chegar.

Na manhã seguinte, o vento levantou-se.

Era um vento forte, daqueles que fazem a ria ganhar pequenas ondas e obrigam os barcos a prender melhor as amarras.

O pequeno barquinho sentiu a vela encher-se.

Pela primeira vez, soltaram-no.

Ele afastou-se devagar.

Passou pelas margens da Gafanha.

Deixou para trás os barcos que sempre tinham gozado com ele.

E continuou.

Quanto mais avançava, mais o coração parecia bater.

Chegou perto da Barra.

E ali estava ele.

O farol.

Alto, branco e imponente.

O pequeno barquinho olhou para cima.

— Cheguei até aqui.

O farol iluminou-o.

E, naquele momento, percebeu uma coisa.

Talvez nunca viesse a ter o tamanho de uma grande traineira.

Talvez nunca tivesse um motor potente.

Talvez nunca carregasse toneladas de peixe.

Mas tinha atravessado águas que muitos barcos maiores nunca tinham tido coragem de enfrentar.

Tinha aprendido a conhecer o vento.

Tinha aprendido a respeitar o mar.

E, sobretudo, tinha aprendido a não deixar que os outros decidissem o tamanho dos seus sonhos.

Nesse dia, quando regressou à Gafanha da Nazaré, os outros barcos estavam à sua espera.

Ninguém riu.

Ninguém disse que ele era pequeno demais.

Porque agora todos sabiam uma coisa:

O tamanho de um barco não se mede pelo comprimento do casco.

Mede-se pelo tamanho do mar que ele tem coragem de enfrentar.

E o pequeno barquinho continuou a navegar.

Ainda sonhava com o dia em que seria um navio pesqueiro.

Mas já não sonhava porque queria deixar de ser quem era.

Sonhava porque descobrira que ser pequeno nunca foi o mesmo que ter sonhos pequenos.

E, todas as noites, quando o Farol da Barra acendia a sua luz sobre a ria e sobre o mar, o pequeno barquinho sorria.

Porque sabia que, algures entre a Gafanha e o horizonte, ainda havia muito mar para descobrir.

E muitos sonhos para navegar.

 

Autoria: Ana Cristina Marques,  22/09/2026 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Como me sinto!!

  


Às vezes perguntam-me como me sinto, e eu não sei responder.

Não porque não queira. Não porque não saiba o que se passa dentro de mim, mas porque é difícil pôr em palavras algo que foi crescendo devagar e de forma silenciosa.

Eu amo a minha profissão. Sempre amei conduzir. Sempre tive orgulho no que faço e na responsabilidade que isso implica. E, por isso mesmo, é muito difícil para mim admitir isto: neste momento não me sinto psicologicamente capaz de voltar à estrada.

Não foi uma decisão leve. Vim para casa de baixa precisamente para evitar o pior — para me proteger e para proteger os outros. Porque percebi que já não estava segura como deveria estar.

Durante muito tempo vivi num estado de cansaço profundo. O meu cérebro nunca desligava. Mesmo quando tentava descansar, continuava em alerta, a pensar, a planear, a preocupar-se. O sono deixou de ser verdadeiro descanso. Não era reparador.

Fui acumulando exaustão sem me dar conta. E o corpo começou a dar sinais muito claros de que já não estava a aguentar.

Cheguei a sentir um sono tão intenso enquanto conduzia que isso me assustou. Houve momentos em que senti que estava a lutar contra o próprio corpo para me manter desperta. E houve um episódio que nunca esqueço: enquanto aguardava pelos documentos de uma descarga, entre o reboque e o cais, adormeci em pé.

Não foi distração. Não foi falta de responsabilidade. Foi exaustão.

Hoje consigo dormir melhor. O tratamento ajudou nesse aspeto. Mas isso não significa que esteja recuperada.

Continuo a sentir-me desligada, como se não estivesse totalmente presente. Como se uma parte de mim estivesse distante. Tenho dias em que me sinto sem energia, sem motivação e com uma espécie de nevoeiro constante na cabeça. Pensar e concentrar-me continuam a exigir esforço.

As sensações de instabilidade e desequilíbrio também me deixam insegura. E isso, para alguém que conduz veículos pesados, pesa muito mais do que consigo explicar.

O mais difícil é que por fora posso parecer melhor. Cumpro tarefas, levanto-me, faço o que é preciso. Mas por dentro ainda estou num processo de recuperação que não acompanha o que se vê de fora.

Eu não quero deixar de conduzir. Não quero afastar-me da minha profissão. Quero voltar a sentir-me eu — segura, presente e capaz.

E neste momento, honestamente, ainda não estou lá.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Sonhos estranhos



Há sonhos que desaparecem minutos depois de acordarmos. Outros ficam connosco o dia inteiro, como se tivessem deixado uma marca invisível na alma. Esta noite tive um desses sonhos.

Sonhei que estava em casa dos meus avós maternos. No sonho, ambos estavam vivos. Estávamos lá eu, o meu marido e os nossos quatro gatos. O ambiente era estranho, mas ao mesmo tempo tranquilo. Havia uma certeza silenciosa no ar: eu sabia que ia morrer naquele dia.

Disseram-me que precisava de comer ovos cozidos para poder partir sem agonia. Não senti medo. Apenas uma espécie de aceitação calma. Entretanto fui ajudar a minha avó a fazer qualquer coisa em casa e distraí-me completamente da hora em que supostamente deveria morrer.

Foi então que apareceu uma mulher-anjo à janela. Chamava por mim com serenidade, dizendo que eu tinha ultrapassado a minha hora e que estavam à minha espera.

Pediu-me as mãos.

Eu dei-lhas.

E morri.

Acordei profundamente impressionada com a intensidade e a paz daquele sonho. Não houve terror, perseguição ou sofrimento. Apenas uma sensação de passagem, como se estivesse a atravessar uma porta invisível entre duas fases.

Muitas pessoas associam sonhos com a própria morte a maus presságios, mas a verdade é que, simbolicamente, estes sonhos costumam representar transformação, desgaste emocional ou o fim de um ciclo interior. A morte nos sonhos raramente fala da morte física; fala mais de mudanças profundas dentro de nós.

Talvez o meu subconsciente esteja apenas cansado. Talvez esteja a processar emoções, ansiedade, noites mal dormidas e o peso psicológico acumulado dos últimos tempos. Ou talvez o sonho tenha sido apenas um lembrete estranho de que, por vezes, precisamos deixar morrer partes de nós para conseguirmos continuar.

Seja qual for o significado, foi um daqueles sonhos impossíveis de esquecer.



I




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Há lugares que nos atravessam

Hoje vim descarregar à base do Intermarché de Paços de Ferreira.

Um dia de trabalho normal. Mais um destino, mais uma entrega.

Mas ao passar pelo estabelecimento prisional, o tempo parou por segundos.

Há lugares que nos atravessam. Que não são apenas edifícios. São memórias vivas. São capítulos inteiros da nossa história.

Ali corri durante anos com a minha avó e com os meus sobrinhos para visitar o meu irmão mais velho. Ali esperei dias de precária, horas que pareciam eternas, para o trazer e depois para o levar de volta. Ali vivi silêncios pesados no carro, conversas difíceis, perguntas inocentes que não sabíamos bem como responder.

Foram anos muito difíceis.

Não vou romantizar. Ele errou. E mereceu enfrentar as consequências dos seus atos. A justiça faz o seu caminho.

Mas há uma parte desta história que quase nunca se fala: a da família.

Nós não merecíamos os julgamentos.

Não merecíamos os olhares atravessados.

Não merecíamos os comentários sussurrados nem as certezas de quem nunca viveu na nossa pele.

Há uma dor silenciosa em ser “família de”.

Carregamos o peso da culpa que não é nossa.

Carregamos a vergonha que a sociedade decide distribuir por apelido.

Carregamos a lealdade, mesmo quando ela dói.

Hoje, ao passar ali, senti um misto de emoções difícil de explicar. Não foi só tristeza. Não foi só revolta. Foi também consciência do caminho que percorremos. Do que resistimos. Do que aguentámos.

Foram anos que nos marcaram, mas não nos definem.

Sobrevivemos aos julgamentos alheios. Sobrevivemos às incertezas. Sobrevivemos ao peso do que não escolhemos viver.

E hoje, ao passar naquele mesmo lugar, já não sou a mesma mulher que ali deixava o irmão depois de uma visita.

Sou alguém que sabe que a dor transforma. Que as cicatrizes ensinam. E que nem todos os fardos que carregamos são nossos — mas mesmo assim aprendemos a suportá-los.

Há lugares que nos atravessam.

Mas também há força em conseguir atravessá-los de volta.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O lugar onde ficou uma parte de mim

Há lugares que não são só lugares.

São feridas abertas no mapa da nossa vida.

No dia 14 de fevereiro de 2019 tive um acidente de camião que mudou tudo. Estava grávida da Carolina, com 20 semanas de gestação. Nesse dia, a Carolina morreu dentro de mim.

Eu própria quase morri.

Há datas que não passam. Ficam.

E há dores que não fazem barulho, mas ecoam para sempre.

A partir desse dia, o Dia de São Valentim deixou de ter sentido. O mundo continuou a celebrar o amor a 14 de fevereiro, mas para nós essa data ficou marcada por outra coisa. Não festejamos o Dia dos Namorados nesse dia. Não por falta de amor — mas porque há dias que deixam de permitir celebrações.

Sempre que passo naquele sítio, não é apenas uma estrada. É uma viagem no tempo. O corpo lembra-se antes da cabeça. O coração acelera, a respiração muda, e por breves segundos estou outra vez ali. Não porque queira, mas porque o trauma não pede licença.

Sinto, muitas vezes, que morri ali também.

Ou pelo menos uma parte de mim morreu. A mulher que eu era antes, os sonhos que carregava, a inocência de acreditar que a vida segue sempre um rumo lógico e justo.

A Carolina não teve tempo de respirar o mundo, mas teve um lugar em mim. E terá sempre. Não se “ultrapassa” a perda de um filho. Aprende-se, com muito custo, a viver com a ausência. Aprende-se a caminhar com um vazio que ninguém vê.

Escrevo isto não para causar pena, mas para dizer uma verdade que raramente é dita em voz alta: sobreviver não é o mesmo que viver sem marcas. E está tudo bem em admitir isso.

Hoje sigo em frente — não porque seja fácil, mas porque é possível. Com cicatrizes. Com memórias. Com dias melhores e outros em que tudo pesa mais.

E naquele lugar… ficou uma parte de mim.

Mas outra parte escolheu ficar viva.


À minha filha, Ana Carolina.

Foste amor desde o primeiro instante.

Vives em mim, em nós, hoje e sempre.