quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Há lugares que nos atravessam

Hoje vim descarregar à base do Intermarché de Paços de Ferreira.

Um dia de trabalho normal. Mais um destino, mais uma entrega.

Mas ao passar pelo estabelecimento prisional, o tempo parou por segundos.

Há lugares que nos atravessam. Que não são apenas edifícios. São memórias vivas. São capítulos inteiros da nossa história.

Ali corri durante anos com a minha avó e com os meus sobrinhos para visitar o meu irmão mais velho. Ali esperei dias de precária, horas que pareciam eternas, para o trazer e depois para o levar de volta. Ali vivi silêncios pesados no carro, conversas difíceis, perguntas inocentes que não sabíamos bem como responder.

Foram anos muito difíceis.

Não vou romantizar. Ele errou. E mereceu enfrentar as consequências dos seus atos. A justiça faz o seu caminho.

Mas há uma parte desta história que quase nunca se fala: a da família.

Nós não merecíamos os julgamentos.

Não merecíamos os olhares atravessados.

Não merecíamos os comentários sussurrados nem as certezas de quem nunca viveu na nossa pele.

Há uma dor silenciosa em ser “família de”.

Carregamos o peso da culpa que não é nossa.

Carregamos a vergonha que a sociedade decide distribuir por apelido.

Carregamos a lealdade, mesmo quando ela dói.

Hoje, ao passar ali, senti um misto de emoções difícil de explicar. Não foi só tristeza. Não foi só revolta. Foi também consciência do caminho que percorremos. Do que resistimos. Do que aguentámos.

Foram anos que nos marcaram, mas não nos definem.

Sobrevivemos aos julgamentos alheios. Sobrevivemos às incertezas. Sobrevivemos ao peso do que não escolhemos viver.

E hoje, ao passar naquele mesmo lugar, já não sou a mesma mulher que ali deixava o irmão depois de uma visita.

Sou alguém que sabe que a dor transforma. Que as cicatrizes ensinam. E que nem todos os fardos que carregamos são nossos — mas mesmo assim aprendemos a suportá-los.

Há lugares que nos atravessam.

Mas também há força em conseguir atravessá-los de volta.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O lugar onde ficou uma parte de mim

Há lugares que não são só lugares.

São feridas abertas no mapa da nossa vida.

No dia 14 de fevereiro de 2019 tive um acidente de camião que mudou tudo. Estava grávida da Carolina, com 20 semanas de gestação. Nesse dia, a Carolina morreu dentro de mim.

Eu própria quase morri.

Há datas que não passam. Ficam.

E há dores que não fazem barulho, mas ecoam para sempre.

A partir desse dia, o Dia de São Valentim deixou de ter sentido. O mundo continuou a celebrar o amor a 14 de fevereiro, mas para nós essa data ficou marcada por outra coisa. Não festejamos o Dia dos Namorados nesse dia. Não por falta de amor — mas porque há dias que deixam de permitir celebrações.

Sempre que passo naquele sítio, não é apenas uma estrada. É uma viagem no tempo. O corpo lembra-se antes da cabeça. O coração acelera, a respiração muda, e por breves segundos estou outra vez ali. Não porque queira, mas porque o trauma não pede licença.

Sinto, muitas vezes, que morri ali também.

Ou pelo menos uma parte de mim morreu. A mulher que eu era antes, os sonhos que carregava, a inocência de acreditar que a vida segue sempre um rumo lógico e justo.

A Carolina não teve tempo de respirar o mundo, mas teve um lugar em mim. E terá sempre. Não se “ultrapassa” a perda de um filho. Aprende-se, com muito custo, a viver com a ausência. Aprende-se a caminhar com um vazio que ninguém vê.

Escrevo isto não para causar pena, mas para dizer uma verdade que raramente é dita em voz alta: sobreviver não é o mesmo que viver sem marcas. E está tudo bem em admitir isso.

Hoje sigo em frente — não porque seja fácil, mas porque é possível. Com cicatrizes. Com memórias. Com dias melhores e outros em que tudo pesa mais.

E naquele lugar… ficou uma parte de mim.

Mas outra parte escolheu ficar viva.


À minha filha, Ana Carolina.

Foste amor desde o primeiro instante.

Vives em mim, em nós, hoje e sempre.