Hoje vim descarregar à base do Intermarché de Paços de Ferreira.
Um dia de trabalho normal. Mais um destino, mais uma entrega.
Mas ao passar pelo estabelecimento prisional, o tempo parou por segundos.
Há lugares que nos atravessam. Que não são apenas edifícios. São memórias vivas. São capítulos inteiros da nossa história.
Ali corri durante anos com a minha avó e com os meus sobrinhos para visitar o meu irmão mais velho. Ali esperei dias de precária, horas que pareciam eternas, para o trazer e depois para o levar de volta. Ali vivi silêncios pesados no carro, conversas difíceis, perguntas inocentes que não sabíamos bem como responder.
Foram anos muito difíceis.
Não vou romantizar. Ele errou. E mereceu enfrentar as consequências dos seus atos. A justiça faz o seu caminho.
Mas há uma parte desta história que quase nunca se fala: a da família.
Nós não merecíamos os julgamentos.
Não merecíamos os olhares atravessados.
Não merecíamos os comentários sussurrados nem as certezas de quem nunca viveu na nossa pele.
Há uma dor silenciosa em ser “família de”.
Carregamos o peso da culpa que não é nossa.
Carregamos a vergonha que a sociedade decide distribuir por apelido.
Carregamos a lealdade, mesmo quando ela dói.
Hoje, ao passar ali, senti um misto de emoções difícil de explicar. Não foi só tristeza. Não foi só revolta. Foi também consciência do caminho que percorremos. Do que resistimos. Do que aguentámos.
Foram anos que nos marcaram, mas não nos definem.
Sobrevivemos aos julgamentos alheios. Sobrevivemos às incertezas. Sobrevivemos ao peso do que não escolhemos viver.
E hoje, ao passar naquele mesmo lugar, já não sou a mesma mulher que ali deixava o irmão depois de uma visita.
Sou alguém que sabe que a dor transforma. Que as cicatrizes ensinam. E que nem todos os fardos que carregamos são nossos — mas mesmo assim aprendemos a suportá-los.
Há lugares que nos atravessam.
Mas também há força em conseguir atravessá-los de volta.
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