terça-feira, 9 de junho de 2026

  


Às vezes perguntam-me como me sinto, e eu não sei responder.

Não porque não queira. Não porque não saiba o que se passa dentro de mim, mas porque é difícil pôr em palavras algo que foi crescendo devagar e de forma silenciosa.

Eu amo a minha profissão. Sempre amei conduzir. Sempre tive orgulho no que faço e na responsabilidade que isso implica. E, por isso mesmo, é muito difícil para mim admitir isto: neste momento não me sinto psicologicamente capaz de voltar à estrada.

Não foi uma decisão leve. Vim para casa de baixa precisamente para evitar o pior — para me proteger e para proteger os outros. Porque percebi que já não estava segura como deveria estar.

Durante muito tempo vivi num estado de cansaço profundo. O meu cérebro nunca desligava. Mesmo quando tentava descansar, continuava em alerta, a pensar, a planear, a preocupar-se. O sono deixou de ser verdadeiro descanso. Não era reparador.

Fui acumulando exaustão sem me dar conta. E o corpo começou a dar sinais muito claros de que já não estava a aguentar.

Cheguei a sentir um sono tão intenso enquanto conduzia que isso me assustou. Houve momentos em que senti que estava a lutar contra o próprio corpo para me manter desperta. E houve um episódio que nunca esqueço: enquanto aguardava pelos documentos de uma descarga, entre o reboque e o cais, adormeci em pé.

Não foi distração. Não foi falta de responsabilidade. Foi exaustão.

Hoje consigo dormir melhor. O tratamento ajudou nesse aspeto. Mas isso não significa que esteja recuperada.

Continuo a sentir-me desligada, como se não estivesse totalmente presente. Como se uma parte de mim estivesse distante. Tenho dias em que me sinto sem energia, sem motivação e com uma espécie de nevoeiro constante na cabeça. Pensar e concentrar-me continuam a exigir esforço.

As sensações de instabilidade e desequilíbrio também me deixam insegura. E isso, para alguém que conduz veículos pesados, pesa muito mais do que consigo explicar.

O mais difícil é que por fora posso parecer melhor. Cumpro tarefas, levanto-me, faço o que é preciso. Mas por dentro ainda estou num processo de recuperação que não acompanha o que se vê de fora.

Eu não quero deixar de conduzir. Não quero afastar-me da minha profissão. Quero voltar a sentir-me eu — segura, presente e capaz.

E neste momento, honestamente, ainda não estou lá.


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