Na Gafanha da Nazaré havia uma gaivota que não era como as outras.
Chamava-se Matilde.
Enquanto as outras gaivotas passavam o dia a voar por cima da ria, a pousar nos barcos e a discutir umas com as outras por causa de um pedaço de pão, Matilde tinha um sonho.
Queria ser pescadora.
— Pescadora? — perguntou a gaivota mais velha, arregalando os olhos. — Tu és uma gaivota!
— Eu sei.
— E as gaivotas não são pescadoras.
Matilde olhou para ela com ar desconfiado.
— Então explica-me porque é que passamos a vida a roubar peixe aos pescadores.
A gaivota mais velha ficou calada.
Não tinha pensado nisso.
E Matilde tinha razão.
Todas as manhãs, lá ia ela até aos barcos, tentando perceber como funcionava aquela coisa de pescar.
Observava os pescadores a preparar as redes.
Observava os barcos a sair.
Observava os homens a olhar para o céu, para o mar e para o vento, como se conseguissem conversar com eles.
E Matilde queria aprender.
Um dia, decidiu que já estava preparada.
Voou até um pequeno barco que estava atracado na ria e pousou orgulhosamente na proa.
— Bom dia! — disse.
O pescador levantou a cabeça.
— Bom dia...?
— Vim aprender a pescar.
O homem ficou a olhar para ela.
Depois começou a rir.
— E sabes pescar?
— Ainda não.
— Sabes lançar redes?
— Ainda não.
— Sabes conduzir um barco?
Matilde endireitou as penas.
— Isso também ainda não.
— Então sabes fazer o quê?
Matilde pensou.
— Sei encontrar peixe.
O pescador deixou de rir.
— Isso sabes?
— Claro. Tenho asas.
O homem coçou a cabeça.
Aquilo, admitia, fazia algum sentido.
Nesse dia, Matilde acompanhou o barco.
Não conseguiu lançar redes.
Não conseguiu conduzir.
E quase caiu dentro de água três vezes.
Mas encontrou um cardume.
— Ali! — gritou ela, voando em círculos. — Ali!
O pescador aproximou o barco.
E tinha razão.
Havia peixe.
A partir desse dia, Matilde passou a acompanhar os pescadores.
Nunca chegou a ser uma pescadora como imaginava.
Não aprendeu a lançar redes.
Não conduziu nenhum barco.
E continuou a roubar um ou outro peixe quando ninguém estava a olhar.
Mas tornou-se uma excelente companheira de bordo.
E descobriu uma coisa importante.
Às vezes, não precisamos de ser exatamente aquilo que sonhámos ser.
Podemos descobrir que temos um lugar diferente.
Um lugar onde aquilo que sabemos fazer é precisamente aquilo de que alguém precisava.
Ao fim da tarde, Matilde costumava pousar no topo do barco e olhar para o Farol da Barra.
E dizia:
— Um dia ainda vou ter o meu próprio barco.
O farol ficava calado.
Mas parecia piscar um bocadinho mais depressa.
Talvez estivesse a rir.
Ou talvez soubesse que, conhecendo Matilde, aquele dia ainda havia de chegar.
Porque naquela terra de barcos, marés e sonhos, havia uma coisa que toda a gente aprendia cedo:
Nunca se deve dizer a uma gaivota que ela não consegue fazer alguma coisa.
Principalmente à Matilde.
Porque ela podia muito bem tentar.
E, provavelmente, ainda conseguia.
Autoria: Ana Cristina Marques, 23-09-2026

Sem comentários:
Enviar um comentário