quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A Gaivota que Queria Ser Pescadora

 


 


 Na Gafanha da Nazaré havia uma gaivota que não era como as outras.

Chamava-se Matilde.

Enquanto as outras gaivotas passavam o dia a voar por cima da ria, a pousar nos barcos e a discutir umas com as outras por causa de um pedaço de pão, Matilde tinha um sonho.

Queria ser pescadora.

— Pescadora? — perguntou a gaivota mais velha, arregalando os olhos. — Tu és uma gaivota!

— Eu sei.

— E as gaivotas não são pescadoras.

Matilde olhou para ela com ar desconfiado.

— Então explica-me porque é que passamos a vida a roubar peixe aos pescadores.

A gaivota mais velha ficou calada.

Não tinha pensado nisso.

E Matilde tinha razão.

Todas as manhãs, lá ia ela até aos barcos, tentando perceber como funcionava aquela coisa de pescar.

Observava os pescadores a preparar as redes.

Observava os barcos a sair.

Observava os homens a olhar para o céu, para o mar e para o vento, como se conseguissem conversar com eles.

E Matilde queria aprender.

Um dia, decidiu que já estava preparada.

Voou até um pequeno barco que estava atracado na ria e pousou orgulhosamente na proa.

— Bom dia! — disse.

O pescador levantou a cabeça.

— Bom dia...?

— Vim aprender a pescar.

O homem ficou a olhar para ela.

Depois começou a rir.

— E sabes pescar?

— Ainda não.

— Sabes lançar redes?

— Ainda não.

— Sabes conduzir um barco?

Matilde endireitou as penas.

— Isso também ainda não.

— Então sabes fazer o quê?

Matilde pensou.

— Sei encontrar peixe.

O pescador deixou de rir.

— Isso sabes?

— Claro. Tenho asas.

O homem coçou a cabeça.

Aquilo, admitia, fazia algum sentido.

Nesse dia, Matilde acompanhou o barco.

Não conseguiu lançar redes.

Não conseguiu conduzir.

E quase caiu dentro de água três vezes.

Mas encontrou um cardume.

— Ali! — gritou ela, voando em círculos. — Ali!

O pescador aproximou o barco.

E tinha razão.

Havia peixe.

A partir desse dia, Matilde passou a acompanhar os pescadores.

Nunca chegou a ser uma pescadora como imaginava.

Não aprendeu a lançar redes.

Não conduziu nenhum barco.

E continuou a roubar um ou outro peixe quando ninguém estava a olhar.

Mas tornou-se uma excelente companheira de bordo.

E descobriu uma coisa importante.

Às vezes, não precisamos de ser exatamente aquilo que sonhámos ser.

Podemos descobrir que temos um lugar diferente.

Um lugar onde aquilo que sabemos fazer é precisamente aquilo de que alguém precisava.

Ao fim da tarde, Matilde costumava pousar no topo do barco e olhar para o Farol da Barra.

E dizia:

— Um dia ainda vou ter o meu próprio barco.

O farol ficava calado.

Mas parecia piscar um bocadinho mais depressa.

Talvez estivesse a rir.

Ou talvez soubesse que, conhecendo Matilde, aquele dia ainda havia de chegar.

Porque naquela terra de barcos, marés e sonhos, havia uma coisa que toda a gente aprendia cedo:

Nunca se deve dizer a uma gaivota que ela não consegue fazer alguma coisa.

Principalmente à Matilde.

Porque ela podia muito bem tentar.

E, provavelmente, ainda conseguia.

 

Autoria: Ana Cristina Marques, 23-09-2026