segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A Gaivota Matilde e o Peixe que Não Queria Ser Pescado

 



Naquela manhã, o mar estava tão calmo que até a Matilde achou estranho.

E quando a Matilde achava alguma coisa estranha, normalmente era porque estava prestes a acontecer alguma coisa.

A gaivota sobrevoava a ria, como fazia todas as manhãs, à procura de qualquer coisa que pudesse comer.

Não era esquisita.

Um bocadinho de pão.

Uma sardinha esquecida.

Um peixe que tivesse tido o azar de nadar demasiado perto dela.

Matilde não gostava de chamar a isso roubar.

Preferia chamar-lhe aproveitamento inteligente dos recursos disponíveis.

Foi então que o viu.

Um pequeno peixe prateado nadava junto às pedras.

Matilde desceu rapidamente.

— Bom dia!

O peixe assustou-se e escondeu-se atrás de uma pedra.

— Não tenhas medo! — disse Matilde. — Eu só queria conversar.

O peixe espreitou.

— Conversar?

— Sim.

— Com uma gaivota?

— Tens alguma coisa contra as gaivotas?

— Na verdade... tenho.

Matilde ficou ofendida.

— Porquê?

O peixe respirou fundo.

— Porque vocês comem peixes.

Matilde olhou para ele.

Depois olhou para o mar.

Depois voltou a olhar para ele.

— Nem todas as gaivotas comem todos os peixes.

— Tu comes?

Matilde ficou calada.

— Às vezes.

— Então não confio em ti.

— Olha que eu sou uma gaivota de palavra!

— Isso é exatamente o que uma gaivota diria antes de comer um peixe.

Matilde teve de admitir que o argumento tinha alguma lógica.

— Está bem — respondeu. — Prometo que não te como.

O peixe saiu devagar de trás da pedra.

— Prometes mesmo?

— Prometo.

— E se tiveres fome?

Matilde pensou.

— Nesse caso... prometo tentar não ter.

O peixe ficou a olhar para ela.

— Isso não funciona assim.

— Eu sei. Estava só a tentar negociar.

O peixe acabou por rir.

E foi assim que Matilde conheceu Nico.

Nico era um pequeno peixe que tinha um problema.

Não queria ser pescado.

Na verdade, não queria sequer chegar perto de um barco.

Sempre que ouvia motores, escondia-se.

Sempre que via redes, fugia.

E quando via um pescador, desaparecia como se o próprio mar o tivesse engolido.

— Não podes passar a vida inteira escondido — disse Matilde.

— Posso, sim.

— Não podes.

— Posso.

— Não podes.

— Posso.

— Nico...

— Está bem. Talvez possa.

Matilde pousou numa pedra.

— Mas porque tens tanto medo?

Nico ficou algum tempo em silêncio.

— Porque toda a gente me diz que, se eu for apanhado, acabou.

Matilde percebeu.

Não era apenas medo de uma rede.

Era medo do que podia acontecer depois.

Nesse instante, ouviram um barco aproximar-se.

Nico desapareceu.

— Nico!

Nada.

— Nico!

Só se ouvia o barulho das ondas.

Matilde olhou para o barco.

Depois para a água.

E teve uma ideia.

Uma ideia que, como quase todas as ideias da Matilde, provavelmente não era muito sensata.

Voou até ao barco.

— Ei! — gritou.

O pescador levantou os olhos.

— Outra vez tu?

Matilde pousou na proa.

— Tenho uma coisa para te pedir.

— Se for peixe, ainda nem começámos.

— Não quero peixe.

O pescador ficou surpreendido.

— Então o que queres?

Matilde apontou para a água.

— Hoje não pesques naquela zona.

O pescador franziu o sobrolho.

— Porquê?

Matilde olhou para o mar.

— Porque há alguém ali que ainda não está preparado para ser apanhado.

O pescador ficou alguns segundos em silêncio.

Depois desligou o motor.

— Está bem.

Matilde sorriu.

— Obrigada.

— Mas amanhã não te prometo nada.

— Amanhã logo se vê.

Quando o barco se afastou, Nico apareceu devagar.

— Ele foi embora?

— Foi.

— Porquê?

Matilde encolheu as asas.

— Porque às vezes as pessoas só precisam que alguém lhes dê uma oportunidade.

Nico aproximou-se.

— Obrigado.

Matilde sorriu.

— Não agradeças já.

— Porquê?

— Porque agora tens outro problema.

— Qual?

Matilde apontou para o céu.

— Eu prometi que não te comia.

Nico arregalou os olhos.

— E então?

— Estou cheia de fome.

Nico desapareceu debaixo de água num instante.

Matilde começou a rir.

— Estava a brincar!

Ou pelo menos foi isso que disse.

Mas, desde esse dia, sempre que Matilde passava pela ria, procurava por Nico.

E Nico já não fugia.

Aprendeu que nem tudo o que se aproxima de nós vem para nos fazer mal.

E Matilde aprendeu uma coisa ainda mais importante:

Ás vezes, proteger alguém não significa lutar por essa pessoa. Significa simplesmente dar-lhe espaço para que possa continuar a nadar.

E, dizem os pescadores da Gafanha, ainda hoje há um pequeno peixe prateado que nada junto às pedras quando vê Matilde no céu.

Ela não o come.

Ele não foge.

E os dois continuam amigos.

Embora Matilde continue a afirmar que, se um dia aparecer uma sardinha distraída...

Ninguém lhe pode exigir milagres.

 

 Autoria: Ana Cristina Marques, 28/09/2026