sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A Mulher que Tinha Mil Vidas

 

 


 

Havia mulheres que desde cedo sabiam o o que queriam ser.

Ela não.

Ou melhor… queria ser tudo.

Quando era miúda, queria conhecer o mundo. Depois quis ensinar. Mais tarde quis conduzir. Houve uma altura em que quis trabalhar com números, outra em que descobriu que também sabia escrever.

E pelo meio ainda quis pintar, fazer artesanato, aprender línguas, viajar, cantar, inventar histórias e, se tivesse tempo, provavelmente aprender mais umas três profissões só porque sim.

As pessoas chamavam-lhe indecisa.

Ela chegou a acreditar.

— Tu tens de te focar numa coisa — diziam-lhe.

E ela tentava.

Tentava caber numa profissão.

Numa casa.

Numa rotina.

Num plano.

Num futuro cuidadosamente desenhado.

Mas havia sempre qualquer coisa dentro dela a bater à porta.

Uma ideia.

Uma vontade.

Uma estrada.

Uma palavra.

Um livro.

Um camião a passar.

Uma tela em branco.

Uma música que começava e que, dois segundos depois, já lhe estava inteira dentro da cabeça.

Era como se tivesse várias mulheres a viver dentro dela e todas quisessem sair ao mesmo tempo.

Uma queria pegar na estrada.

Outra queria ficar em casa a escrever.

Outra queria ensinar.

Outra queria criar coisas com as mãos.

Outra queria viajar até ao outro lado do mundo.

Outra queria simplesmente sentar-se junto ao mar e não fazer absolutamente nada.

Durante muito tempo achou que aquilo era um defeito.

Porque as pessoas gostam de coisas simples.

"Então, afinal, o que queres ser?"

Ela nunca soube responder.

Ou talvez soubesse demasiado bem.

Queria ser livre.

Mas liberdade não cabia numa profissão.

Nem num currículo.

Nem numa caixa para assinalar com uma cruz.

O tempo passou.

E ela foi vivendo.

Alguns sonhos chegaram.

Outros ficaram pelo caminho.

Alguns morreram.

Outros ficaram apenas adormecidos, à espera de que alguém os acordasse.

E houve dias em que olhou para trás e pensou:

"Se calhar perdi tempo."

Até que, certa noite, abriu uma gaveta antiga.

Lá dentro estavam pedaços das suas vidas.

Uma fotografia.

Um bilhete.

Um desenho.

Uma receita.

Uma caneta.

Uma folha cheia de contas.

Uma frase escrita à pressa.

Uma fotografia de uma estrada.

Um pequeno pedaço de tecido.

E um papel onde, anos antes, tinha escrito uma coisa aparentemente absurda:

"Um dia ainda vou escrever um livro."

Ela sorriu.

Não porque tivesse cumprido tudo.

Mas porque percebeu uma coisa.

A mulher que queria ensinar não tinha desaparecido quando começou a conduzir.

A mulher que queria conduzir não morreu quando começou a escrever.

A mulher dos números não deixou de existir quando pegou num pincel.

A mulher que fazia artesanato continuava ali quando começou a sonhar com outras coisas.

Nenhuma tinha sido substituída.

Tinham-se acumulado.

Como páginas de um livro.

Foi então que percebeu o erro.

Passara anos a tentar descobrir qual delas era a verdadeira.

A mulher que queria ensinar.

A que queria conduzir.

A que fazia contas.

A que escrevia.

A que pintava.

A que criava coisas com as mãos.

A que queria aprender mais uma língua só porque sim.

A que precisava de estrada.

A que precisava de mar.

A que, de vez em quando, só precisava de desaparecer do mundo durante umas horas e ficar sozinha com os próprios pensamentos.

Durante anos achara que tinha de escolher.

Uma profissão.

Um caminho.

Uma versão de si própria.

Como se a vida fosse uma sala com uma única porta e, depois de escolher uma, todas as outras se fechassem para sempre.

Mas não.

Nenhuma tinha desaparecido.

Tinham ficado todas lá.

Aguardando.

Às vezes caladas.

Às vezes aos gritos.

Mas sempre dela.

E foi aí que finalmente percebeu:

Não tinha mil vidas porque não soubesse quem era.

Tinha mil vidas porque nunca coubera numa só.

Talvez nunca tivesse sido indecisa.

Talvez tivesse sido apenas demasiado grande para os lugares onde tentou caber.

Demasiado curiosa para uma única profissão.

Demasiado inquieta para uma vida previsível.

Demasiado viva para aceitar que nascer, estudar, trabalhar, pagar contas e envelhecer fosse tudo o que havia para fazer.

Olhou novamente para o espelho.

Desta vez não procurou uma resposta.

Procurou-se.

E encontrou-a.

Estava ali.

Com todas as cicatrizes.

Todos os sonhos.

Todas as versões.

Todos os erros.

Todas as estradas que percorreu e todas aquelas que ainda queria percorrer.

Sorriu.

— Afinal, eu não andei perdida.

Fez uma pausa.

— Andei ocupada a ser eu.

E talvez fosse essa a maior diferença.

Há pessoas que passam a vida inteira à procura do seu lugar no mundo.

Ela percebeu que não precisava de encontrar lugar nenhum.

Precisava era de deixar de pedir licença para ocupar espaço.

Fechou a gaveta.

Apagou a luz.

E saiu.

Não sabia exatamente para onde ia.

Mas, pela primeira vez, isso não a assustava.

Porque já tinha finalmente percebido uma coisa:

Não nasceu para escolher uma vida.

Nasceu para viver todas as que conseguisse.

E se a vida insistisse em pôr-lhe limites, ela faria o que sempre soube fazer melhor.

Abriria outra estrada.

E seguiria. 

 

 Autoria: Ana Cristina Marques, 25/09/2026 

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