sábado, 26 de setembro de 2026

O Farol que Tinha Medo do Escuro

 



Diz quem conhece bem a costa da Gafanha que, quando a noite cai e o mar começa a ficar negro, há uma luz que nunca se esquece de ninguém.

É a luz do Farol da Barra.

Todas as noites, quando o sol desaparecia atrás do horizonte, o Farol acendia a sua grande luz e começava a varrer o mar.

Uma volta.

Outra volta.

E mais outra.

Iluminava os barcos que regressavam a casa, os pescadores que ainda andavam lá fora e até aqueles que, perdidos no meio da escuridão, já começavam a pensar que talvez nunca encontrassem o caminho de volta.

— Estou aqui — dizia o Farol.

E o mar parecia responder:

— Nós sabemos.

O Farol gostava daquilo.

Gostava de ser útil.

Gostava de saber que, algures no meio da noite, havia alguém que via a sua luz e respirava de alívio.

Mas havia uma coisa que ninguém sabia.

O Farol tinha medo do escuro.

Sim.

Um farol.

Com medo do escuro.

Pode parecer uma coisa estranha, mas era verdade.

Quando chegava a hora de apagar a luz, o Farol ficava inquieto.

O mar desaparecia na escuridão.

A praia ficava silenciosa.

As gaivotas procuravam abrigo.

E ele ficava ali, sozinho, sem saber muito bem o que fazer consigo próprio.

— E se o escuro for maior do que eu? — perguntava baixinho.

Numa dessas noites, a pequena Matilde, a gaivota mais curiosa da costa, pousou numa das pedras junto ao Farol.

— Estás com medo?

O Farol ficou em silêncio.

— Eu? Medo? — respondeu finalmente. — Sou um farol. Eu é que ilumino os outros.

Matilde inclinou a cabeça.

— Isso não responde à minha pergunta.

O Farol suspirou.

— Tenho medo do escuro.

Matilde não se riu.

Não fez piadas.

Nem sequer lhe disse que aquilo era absurdo.

Limitou-se a olhar para o mar.

— Sabes uma coisa? — disse ela. — Eu também tenho medo de algumas coisas.

— Tu?

— Claro.

— De quê?

Matilde pensou durante uns segundos.

— De tempestades.

O Farol ficou surpreendido.

— Mas tu voas!

— E tu iluminas.

Ficaram os dois em silêncio.

Porque, naquele momento, perceberam uma coisa.

Talvez ser aquilo que somos não nos torne imunes ao medo.

Talvez coragem não seja nunca ter medo.

Talvez coragem seja continuar a fazer aquilo que sabemos fazer, mesmo quando o medo aparece.

Nessa noite, Matilde ficou ali.

O Farol apagou a luz.

E, pela primeira vez, não ficou sozinho com o escuro.

Ficaram os dois a olhar para o mar.

A lua apareceu entre as nuvens e desenhou um caminho prateado sobre a água.

— Afinal — disse Matilde — o escuro também tem luzes.

O Farol sorriu.

Desde essa noite, continuou a acender a sua luz todas as noites.

Continuou a guiar barcos.

Continuou a iluminar quem precisava de encontrar o caminho de casa.

Mas nunca mais teve vergonha de dizer que tinha medo.

Porque percebeu que não precisava de deixar de ter medo para continuar a ser farol.

E talvez seja essa a coisa mais bonita que o mar alguma vez lhe ensinou:

Há quem passe a vida a iluminar o caminho dos outros e se esqueça de que também merece uma luz quando chega a sua vez de ter medo.

 

 

Autoria: Ana Cristina Marques, 26-09-2026 

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